domingo, 22 de janeiro de 2012

Saindo de Mim


Existem várias músicas, frases, livros inteiros, pra quem foi largado e é bom, injustiçado e infeliz por conta de outra pessoa que é, obviamente, o oposto disso, por lógica simples e emocional. Mas e se não for bem assim? E se duas pessoas decentes estiverem rompendo, como fica a que rompeu? Então ela não sofre? Porra nenhuma, sofre sim. A falta de escolha é morbidamente cruel pros dois lados, a frustração não é unilateral. E se os dois lados saem escaldados, e se os dois lados passam a ter mais medo de se machucar? Às vezes só dizer as derradeiras palavras não quer mesmo dizer que você é a parte menos ferida do negócio.

Não sou a ultimate filha da puta nem a vítima indefesa. Não tem letra de música pra mim.

sábado, 3 de setembro de 2011

Das Metáforas

Quando sinto esse tédio infinito, pesado, permeado de uma angústia que acena lá no horizonte, me pergunto se é esse o destino inexorável de todos nós. Tenho medo que esse filete de dor, tão pequeno, possa ser uma rachadura e, como é do trabalho das rachaduras, que ela só vá se abrir e se abrir e abrir. É como se eu vivesse numa eterna bruma, ou um vapor de cigarro turvasse justamente o lugar aonde o eu que carrego, pensando, sentindo e tal, deveria se encontrar com o ser de carne e osso, e o resultado é jamais sentir que os dois estão andando juntos. E essa bruma me impede de ver quando é só melancolia, fadada a qualquer um parecido comigo, ou se é a dor de estar errando, a cada passo de um caminho errado. E a angústia acena pra mim de longe, como se tivesse a resposta para tudo que me pergunto, mas a neblina é tão densa que desisto e volto pra casa com as minhas rachaduras.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

“O amor entre nós dois quase não teve tempo de acontecer.

Eu choro como uma loba vendo o seu filhote numa armadilha,

Pronta para lamber todas as suas feridas cor de ferrugem,

Para enxertar a neblina dos campos onde estiver lhe faltando a pele.

Mas você já morreu, encurralado em Paris,

e não pode ser resgatado, inteiro ou aos pedaços.

Adeus, meu filhote tímido e selvagem, agora morto.

Você sempre será mais querido para mim do que todos os que eu domestiquei

Mas não há ninguém que não seja encurralado, e, em todo o mundo, os países –

menores, maiores, mais leves, mais rígidos – são armadilhas.

Adeus, meu filhote, para tantos um lobo selvagem.

Pode haver alguns com menos dentes, mas não tão gentis, nem tão puros,

E, acima dos lobos e dos cães que brigam sobre o teu túmulo, eu uivo

não como uma loba, mas apenas como uma cadela massacrada.”

- Nina Korzinkina

Estava tentando lembrar dessa poesia há um tempo, até que lembrei de um caderno onde eu as transcrevia. Ela é estranha, esquisita, era e é uma das minhas favoritas, e a neblina dela está na minha vida há muitos anos. Amanhã finalmente vou à exposição do Pessoa, e acho que a aproximação da data é que está me fazendo ficar tão ligada à poesia de novo.

Sentimentalismos de lado, as mulheres fortes ainda são das poucas que valem a pena serem ouvidas na literatura, e as russas então, nem se fala.

sábado, 5 de março de 2011

Meus amigos, meus discos e livros

Me dá um alívio estar longe dessa realidade toda de internet. Venho, checo meus e-mails, me assusto com tanto e-mail pra responder, respondo um ou dois, dez minutos. Abro o Facebook, leio mensagens, aceito ou recuso um ou dois nêgo, mais dez minutos.

Vinte minutos por semana. 1h20 por mês. Menos de quinze horas ao ano. E não estou menos nerd. Não estou menos em contato com outras pessoas. Não estou menos feliz. Não estou com a sensação de estar me faltando uma perna. Pelo contrário.

Parece que, ao mesmo tempo que a internet abriu um chumaço de possibilidades, retirou a única que a gente tinha antes: passar sem ela. Quando comecei a ver as coisas que eu dizia twittadas quando chegava em casa, ou pior, ter que interromper boas conversas porque as pessoas com quem estava conversando faziam pausas regulares para postar o que estava sendo dito, vi como é fácil tornar a internet o “ querido espelho meu”, uma torrente de egos onde não se lê ninguém além de si mesmo, percebi que era hora de reavaliar o que está acontecendo. O twitter precipitou todo o meu estupor ao concluir como as pessoas estão equivocadas a respeito do uso da tecnologia disponível a elas , mas eu já estava de saco cheio muito antes.

Tava conversando com o namorado sobre isso no outro dia. Desde que ele se mudou pra cá, usa a internet mais ou menos nessa mesma vibe. Deixa baixando os filmes que a gente quer ver (já que a internet dele é melhor que a minha), os jogos, as discografias, os livros que queremos. E nenhum dos dois tá sentindo falta das horas e horas passadas online, como nós dois fazíamos. Parece que o nosso estilo de pensar está muito mais adequado ao nosso modo de encarar a vida, ao nosso trabalho, ou seja, muito mais artesanal. Ensinar uma outra língua é um trabalho que envolve contato direto. É manual, verbal, olho-no-olho, mão na massa, suadeira. É um trabalho vivo, que se desenvolve ali na sua frente, e pra ser bem feito não pode ter muito intermediário, de preferência nada na frente. É de ser humano pra ser humano, pronto cabô.

Nesse quesito, tenho mesmo a sensação de que estou ficando pra trás. Quando vejo uma garota de 11 anos acionando a câmera do celular da amiga pra fazer um vídeo da reação dessa amiga ao ver que o celular dela quebrou, e a outra fingindo para a câmera, gritando “nooossa, o que você fez com o seu celular??”, vejo que esse tempo me ultrapassou. A tecnologia passou a engolfar tudo ao nosso redor e no entanto, não tenho visto uso prático pra ela. Pra mim, virou apenas uma válvula de escape pra bobeira inerente ao ser humano. A internet é o estardalhaço da nossa era. E eu concluí que prefiro ficar quietinha aqui, no meu canto, tentando descobrir o quanto disso eu realmente preciso. Fico com um ou dois tweets por ano. Com uns poucos e-mails de quem importa respondidos. Com uma ou outra encomenda online. E bem.

Prefiro não ter tempo pra pensar antes de digitar, prefiro não ter um perfil só com minhas fotos mais bonitas. Prefiro que as pessoas possam ouvir o som da minha voz da qual não gosto. Essa falta de recursos me faz mais honesta. Me faz mais humana. E acho que isso compensa os defeitos que eu poderia atenuar estando atrás de um computador.

domingo, 8 de agosto de 2010

David Hume

"Se tomamos um livro sobre a doutrina divina, ou sobre metafísica, devemos perguntar o seguinte: ele contém algum raciocínio abstrato sobre tamanho ou número? Não. Contém algum raciocínio sobre fatos e sobre a vida que seja baseado em experiências? Não. Atira-o, então, ao fogo, pois tudo o que ele contém não passa de fantasmagoria e ilusão."

David Hume

sábado, 31 de julho de 2010

DAS COISAS QUE DEGRINGOLAM RAPIDAMENTE

Note to self: Esse é um texto do ano passado, pouco antes de uma viagem que fiz, onde eu ainda estava atolada numa lama danada. Estava arrumando umas papeladas quando descobri esse caderno, perdido, que nem mais lembrava que existia. E de curiosidade, abri, e li esse texto. É pessoal demais, ou foi pessoal demais, porque hoje it's amazing how it doesn't snap any of my heartstrings. Eu o li friamente e achei um relato de uma pessoa que eu não sou mais, mas que interessa a mim. E o lendo, achei que era bem feitinho. Daí digitalizar para que ele não se perca completamente. E -lo em público é uma maneira de preservá-lo, pois daí ele para de pertencer a mim (eu que sempre me perco das coisas), e pra desafiar a minha mania de excesso de privacidade. Chega de lenga, pois. Eis o texto.


Até um tempinho atrás, havia um elo sem data pra terminar. Um elo que dizia, "Não quero que conheça ninguém enquanto eu estiver longe de você", um laço que afirmava que não queria sequer partir. Era, talvez, um laço irrefletido - mas quem é que quer pensar numa hora dessas? - mas a ingenuidade molda muito mais ligações em minha vida do que pensar com maturidade, com sangue-frio. Também, convenhamos, quando se acabou de entrar na casa dos 20, achar que qualquer decisão seja baseada em sangue-frio é a mais pura ingenuidade. Aliás, que diabos, QUALQUER idade está sujeita a decisões, quando falamos do aspecto emocional, a serem completamente patéticas. Querer afirmar que aquela gagueira súbita incontrolável, aquele impulso irrefreável de fazer papel de bobo, aquela ânsia em iguais proporções de ficar, e de sair correndo, chamar a isso de maturidade é, no mínimo, uma grande inocência e uma ingenuidade incrível. Então prefiro à inocência do início ao fim.

Em quatro semanas, com um pouquinho de drama, pero no mucho, posso dizer que a minha vida mudou. Eu tenho uma perspectiva que hoje não tenho mais, para constatar o óbvio [o que eu quis dizer com isso hein minha gente? "Eu tinha uma perspectiva", ou eu "tenho uma perspectiva do que não tenho mais"? Nunca vou saber.] Mas o que fica, e o que me absurda, é o excesso de registros que temos hoje para retratar a tudo que já não temos mais. Temos tão pouco futuro, se compararmos ao quanto que fica do nosso passado... temos tanto passado desde o segundo que nascemos que é impressionante que não capitulemos sobre ele. Temos registros grandes, pequenos ou médios, a escolher, mas muito mais do que poderemos um dia gravar. Temos desde datas históricas, primeiras vezes, a insignificâncias que não marcaram a vida de ninguém, exceto a de uma ou duas. A vida privada está cheia de acontecimentos que transformaram a vida das pessoas, mas que nunca transpuseram a soleira da porta das casas. [estava lendo Saramago, As Intermitências da Morte, nessa época, esse parágrafo me faz lembrar disso muito bem.]

A vida é curiosa e triste, nesse sentido. Dá a opção às pessoas de serem transformadoras ou ninguém, e às vezes os dois.


Por que tudo isso? Porque acabo de perceber o quanto a vida não "perdura", e é por isso que precisamos de datas Porque ao mesmo tempo que os dias só "existem" numa real medida de importância de tempos em tempos, o passar de um dia pode ter um poder tão intenso, tão determinante, que pode ecoar nesse pouco futuro que nos resta indefinidamente.

Foi revivendo um celular velho, depois que o meu foi inutilizado, que tudo voltou. As lembranças de um mês atrás foram superpostas ao presente, como se fossem ontem e hoje. Você falando, "Um dia inteiro sem SMS? NAH...", e um boa noite, mostram um abismo entre nossas duas realidades. E como sempre, o fim é muito mais memorável que o começo. Por mais que a sua mensagem seja muito mais bonita de lembrar, é hoje que fica pra sempre, uma nota de rodapé em tudo o que não somos capazes de ser, e em tudo o que não somos mais. Hoje podemos prescindir um do outro por dias e dias, a minha frieza e a sua indiferença dando o tom. Pode ser que tenhamos apenas brincado de precisar um do outro, ou ingenuamente pensado que podíamos elevar nossa ligação à beira do indispensável. Mas o que é a vida, senão o somatório da nossa ingenuidade, e das coisas que nos são indispensáveis?

Armação dos Búzios, 19/11/2009

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