segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Extremamente Alto & Incrivelmente Perto*

Foi aqui que eu escrevi sobre você. Foi antes mesmo do nosso primeiro toque. Não foi a primeira vez que escrevi, nem tampouco a primeira das vezes que escrevi sobre você, mas essa foi diferente. Eu poderia dizer que ela maculou o local, se buscasse uma palavra rápida que pudesse definir o que aconteceu aqui. Mas não seria correto. O que é possível dizer é que você impregnou este local. Você, que embora tenha estado em tantos lugares comigo, nunca esteve neste. E que embora tenha estado em tantos outros lugares comigo, não impregnou nenhum, mas impregnou este.

O calor do verão está nas alturas e o sol arde minhas costas com sua intensidade. Dois garotos trouxeram um cavalo e agora ele está lá, quase todo dentro da água se banhando. É bonito. Tem a crina marrom e o corpo marrom e branco, e daqui consigo ouvir seus fremidos, embora ele não esteja tão perto assim. Você teria gostado de estar presenciando isso. Os garotos também estão na água. Será que estou presenciando uma das lembranças da infância deles, quando já forem mais crescidos? Não digo lembranças de infância como apenas uma das coisas que a memória se encarrega de guardar como parte de suas atribuições. Isso é lixo. Falo daquela lembrança carregada, que aparece numa hora que não faz sentido e que arrebata com sua intensidade, a lembrança simples e pura e única que arranca com força do momento presente (este no futuro) para retratar o que foi ser um menino de dez anos. Você teria discutido isso comigo? Você gostaria de ter presenciado a que porventura pode ser a futura recordação desses meninos, você acharia que é uma invasão a eles? Eu tendo a me preocupar muito com intromissões assim, mas dessa vez não vejo nada de errado. Estamos só usufruindo um pouco da nossa contemporaneidade. Dividimos o mesmo espaço de tempo num lado e no outro lado do lago. Vai chegar uma hora que não teremos mais essa contemporaneidade para partilhar. Por mais que possamos estar em uma sintonia tão próxima quanto um ser humano pode estar do outro, chegará uma hora onde não estaremos mais existindo paralelamente.

Mas não falo mais dos meninos. Falo de nós dois.

É tão curioso falar em nós. E tão curioso falar sobre o "nosso" tempo. Afinal, você não está aqui. Afinal, você não me toca mais, ainda que possa me dizer que queira. Não é o bastante, ambos sabemos, mas eu sei na pele, literalmente. Nós nunca compartilhamos um mundo. Mas continuamos existindo. Você lá, eu aqui. Mas então por que te sinto aqui? Por que impregna lugares onde nunca esteve?

Paro para olhar, e o cavalo não está mais lá, os meninos não estão mais lá. E você não está aqui.





*Extremamente Alto & Incrivelmente Perto é o título de um livro do Jonathan Safran Foer. Ao invés de ler esse blog, você faria melhor em lê-lo.

4 comentários:

Rita Kramer disse...

"chegará uma hora onde não estaremos mais existindo paralelamente."

Sabe o que isso me lembrou? Ricardo Reis.
Eu sei que você deve saber quem ele é, mas isso de lago, de olhar os meninos e o cavalo e isso de 'não tocar' é tanto Ricardo Reis que não pude deixar de recordá-lo... E principalmente essa poesia da quale segue esse trecho:



"Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes. "



E você ainda diz que não me merece??
Na vida passada, queria ter nascido em Liboa, no início do século, pra ter casado com Fernando Pessoa.
Na próxima vida quero nascer homem pra casar com Paula Groff.

Carlota Polar disse...

Não conhecia isso. o_o
Céus. É fantástico.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
koni-kun disse...

Tô atrasado mas não posso deixar de comentar esse... Perfeito, a imagem, o pôr-do-sol, o cavalo, os meninos, as memórias, os sentimentos... tudo, tudo, tudo.

"Será que estou presenciando uma das lembranças da infância deles, quando já forem mais crescidos?"

Minha parte preferida ^^

Tu é foda mesmo, miss Groff. Não sei o que eu tô fazendo na tua listinha secreta xD

Contato

paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk