quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Gostar de ônibus é um troço meio ingrato

Eu tenho que parar de levar minhas ocasiões pensando "ok, isso daria um ótimo post no blog".

O seu amor é canibal? Ah não, caralho, não!

Enquanto esse pensamento me persegue, e enquanto minha letra balança e estou numa GUERRA sonora aqui no ônibus, faço o que mais gosto (e o que me resta): escrevo.

O caso é o seguinte (e minha letra melhora conforme o ônibus pára nos pontos): O caso é que estou voltando de CF (Cabo Frio para os conhecidos, Calor Fudido pra quem vai lá como eu), estou na penúltima fileira, na janela.

Agora me ocorreu que a... ocorrência é tal que terei que providenciar um marcador: ônibus. Mas continuando.

De repente, me começa a tocar aqueles MP3 de alguém realmente sem desconfiômetro na fileira de trás. À minha direita, mais precisamente, mas não há nada visível. E eu sei que essas merdas que impõem o som no ônibus estão cada vez mais comuns, mas, adivinha só? F-O-D-A-S-E. Não sou obrigada a aturar o som de ninguém, independente de quem quer que seja e...

Argh, minha raiva embaralha minhas palavras. Mas assim, e Deus criou o fone de ouvido, né gente? Noção que existe mais gente no ônibus e no mundo além de você NÃO é um conceito ultrapassado.

Tenho mais ou menos uma noção de quem é. É uma mulher com seus 24 ou 25 anos, com um filho no colo de uns 9 ou 10. Ela é feia de doer, a vadia. Mas enfim. Não costumo mais levar esse tipo de desaforo à minha liberdade e sossego pra casa. Deixei passar e agüentei calada, uma vez, apenas mudando de lugar, o motorista é que deu o chega-pra-lá no cara na ocasião.

Ufa, terra firme. Pesadelo passado. Quantas canetas verdes uma pessoa pode ter na bolsa? Perdi uma, achei outra.

Prossigo. Comecei a olhar pra trás e procurar saber daonde vinha o som, visivelmente aborrecida. Dei com os córneos da feiosa. Me encarou. Encarei. Mas não dava pra ter certeza. E a porra do hip-hop não parava.

Perdida a paciência, mandei num tom alto, claro, calmo: "Quem estiver com o som, pode, POR FAVOR, pôr essa merda num fone de ouvido? É proibido no ônibus, ninguém é obrigado a escutar o que você quer ouvir. Ouça em casa, sem noção do caralho."

E...

Nada. O som não parou, ninguém falou nada. Não sabia como me sentir. Porra, tinha um guarda municipal do lado da coisa! Tinha um bando de homens, tinha gente em pé e... nada! Ninguém tomou nenhuma atitude. E a porra da merda do som.

Fiquei meio sem ação. O que deveria fazer a seguir? Queria esbravejar mais meia dúzia de coisas e emendar uns impropérios. Mas pelo visto não ia adiantar muito, e por mais que fosse cabível, era mais provável que virasse apenas uma coisa um tanto ridícula e um espetáculo risível, um monólogo cercado de bananas. E o hip-hop comendo.

Ir até o cobrador, o motorista, o putaqueoparista, não era o que eu consideraria uma opção. Me esfregar em tanta gente em pé até o começo do ônibus pra pedir algo que já era meu direito não era nada lógico.

Estou super dramatizando isso?

E a verdade é que não confio em mais ninguém pra resolver o menor problema que seja. Principalmente se for quem em tese deveria se predispor a ajudar uma garota, um homem. O caso é que acabei me tornando macho o suficiente, pro meu próprio bem. Será que isso acabará por me tornar um lesbão invocado? Nah. Nein. Sem chance. Assim como é sem chance contar com o motô, se ele não fez nada até agora. E do hip-hop passa pro Ivetão.

Fiz o que um amigo fez: tirei o MEU celular da bolsa e me juntei à abominação. Enquanto o seu amor é canibal comia solto, pus White Collar Boy, do Belle And Sebastian, e prossegui lendo o How To Be Criative, do Hugh MacLeod. Meio envergonhada, meio puta, meio sem saber o que viria a seguir. Mais uma vez, a moda é ignorar o que quer que esteja acontecendo. Os dois sons se pegando, e todo mundo agindo como se tudo estivesse numa nice. Eu devo ter feito muita merda num outro planeta e resolveram me jogar aqui.

Com o celular do meu lado, ficou quase inaudível o barulho da vacona. Consegui continuar lendo na boa, e a menina sentada ao meu lado começou a mexer loucamente em seu celular, a ponto de eu pensar que vinha aí um 3º som, e aí estaria instaurado o pandemônio. Mas não. Ela se vira pra mim e diz algo como se eu, que pelo visto entendia mais "dessas coisas" (?), apontando pro celular, podia ajudá-la, e me faz uma pergunta besta sobre o teor de um SMS que ela quer mandar, se é "será sempre" ou "sempre será". Perguntei a ela se meu som incomodava, e ela disse que não se importava.

Depois disso, a mamífera leiteira dos fundos abaixou o som, ao que eu abaixei também. Ela pareceu desligar, eu desliguei também. O som começou novamente, liguei novamente.

E acabei ouvindo Belle And Sebastian, que era o que eu queria ouvir o tempo todo, mas não podia pois tinha esquecido o fone em casa. Honestamente, não sei se ganhei ou se perdi a discussão, se fiz o que podia fazer ou se me rebaixei também. Mas preferi não ficar entre a horda de bananas desboladas. O mundo começa a ficar muito chato se você começa a aderir. E o prazer de levantar a voz é muito melhor que a conveniência de agüentar calado.

6 comentários:

Daniel Bastos disse...

Tipo odeio ônibus, apesar de algumas vantagens.

Agora...busca do gúglio que levou alguém ao Crediário: http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=o%20que%20%C3%A9%20carlota%20polar%20&btnG=Pesquisar&meta=

As carlotas polares se derreteram de rir.

Pedro disse...

CARALHO! Aconteceu uma merda dessas comigo no baú outro dia, mas o moleque tava do meu lado. Botou lá uns "metal melódico" pra tocar, e eu:

- Aí, headbanger, tenho que curtir essa viadagem de homem cabeludo se esfregando em espada contigo? Tu não tem um fone de ouvido aí, não?
- Ah, foi mal. (e botou o fone)
- Valeu. (ele provavelmente não me ouviu, mas agradeci do mesmo jeito)

Se o putão tivesse feito como a mulher aí do seu ônibus, acho que eu jogava o aparelho do corno pela janela (jogava nada, mas ia me divertir imaginando a possibilidade)

Catavento disse...

São situações como essa me fazem devanear qual o motivo de lança-foguete ser uma arma de porte exclusivamente militar...

Divinas Damas disse...

Olá!

Dica de boa leitura

Política com seriedade? Confira!

Blog: MOSAICO DE LAMA:
www.mosaicodelama.blogspot.com

Comu: POLÍTICA NÃO É LIXEIRA
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=30542704

Caso não goste, delete...

Henrique Tonin disse...

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Sempre me pergunto se esses "spamers" são spamers de verdade ou dadaístas ultra-refinados.

Henrique Tonin disse...

Gostei muito do post, Paula!

E adorei a idéia do marcador "ônibus"; há tantas coisas que acontecem (ou poderiam ter acontecido, e nos deixam uma sensação de perda sem ter havido nada) nos ônibus.

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paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk