domingo, 24 de fevereiro de 2008

JSF

Sempre fui esmagada pelo fato de que o Jonathan Safran Foer lançou seu primeiro livro aos 24 anos. Tenho 19; isso me dá, mais ou menos, cinco anos pra publicar uns contos, ter a boa sorte de receber uma ou duas críticas favoráveis, e a coragem de meter a cara no mundo com umas 300 ou 400 páginas esperançosas, com uma ou duas dúzias de verdades pessoais distribuídas nas crenças dos personagens e algumas tiradas espirituosas.

Tenho dezenove, e ainda preciso descobrir o humor, dominar alguma forma dele e aprender o lance do “timing”, porque sou, na grande maioria das vezes, extremamente sem-graça. Aprendi a enriquecer o teor das conversas e a impressão que as outras pessoas formam de mim com outras características, com uns comentários eventuais curiosos e inusitados, com uma cara de pau e uma eloqüência bem estudadas, que escondem o fato que me perturba horrivelmente: o de não ter graça.

Se são cinco anos pra ser como ele, afinal, cinco anos é muita ou pouca coisa? Digo, pra virar um escritor?

Em cinco anos dá pra fazer um monte de coisas. Ornitologicamente falando, dá pra alimentar um tucaninho, criá-lo com todo o amor do mundo e, seguindo fielmente todas as recomendações e tendo um pouco de boa sorte, no fim desses cinco anos, ter bebês tucaninhos. Bebês tucaninhos seriam legais. Se eu tivesse dois, quem sabe, poderia chamá-los de Trachim e Brod. Até que não ficaria nada mal.

Em cinco anos eu poderia ter uma franquia bem-sucedida de algum fast-food gorduroso. Dizem que eles costumam dar dinheiro a partir do quinto ano. Em cinco anos eu também poderia me formar em Direito, ou Engenharia, ou quem sabe ser psicanalista. Essa última alternativa é até extremamente tentadora, afinal, eu tenho as mesmas motivações egocêntricas de todo mundo que entra na Faculdade de Psicologia: quero entender a mim mesma. Atender e analisar as outras pessoas é uma desculpa fantástica e, de quebra, altamente altruística.

Cada uma dessas coisas têm até um certo apelo pra mim. Mas nenhuma é tão tentadora como ser Jonathan Safran Foer. Como eu poderia querer ser qualquer outra coisa, além dele?

Quantas vidas eu precisaria ter, pra ser um Jonathan Safran Foer? De acordo com a orelha dos livros dele, ele já foi um monte de coisas, desde as mais comuns às mais improváveis. Será que ele sabia que seria todas essas coisas? Será que foi uma série de acontecimentos que foram se sucedendo à medida que ele ia ficando mais velho, aleatoriamente, ou era parte de alguma busca interior? Ele me parece gostar um bocado de buscas, mas nao acho que tenha sido o caso. Às vezes tenho a impressão que, de vez em quando, a vida se enche das coisas que você planeja e de todas as suas decisões, e resolve viver por conta própria por uns tempos. Talvez a vida tire férias de ser comandada por você, digamos, uma ou duas vezes por ano. Vai ver foi um caso desses.

Eu bem que queria escrever sobre minhas aventuras em algum país estranho. Não que a Ucrânia, palco do "Tudo Se Ilumina" seja um país estranho. Provavelmente, pros ucranianos, a Ucrânia deve ser o país mais normal do mundo. Se bobear, os ucranianos devem achar o Brasil um país estranho; como brasileira, devo dizer: o Brasil é o país mais normal do mundo. Mas eu queria viajar pra um lugar, hum... improvável. Fora da rota turística usual. Pra quê ir pra França ou pros Estados Unidos, quando eu poderia ir, por exemplo, pra Myan-mar ou pra Bulgária?

Na verdade mesmo, além do desejo de seguir os passos de Safran, minha motivação pra ir a um desses lugares fora dos lugares comuns aos meus conterrâneos, deveria ser uma busca. Mas eu não busco nada. Nunca busquei nada. Não tenho, tampouco, o desejo de buscar nada. Apenas imagino que, se você tiver o desejo de partir numa busca, que isso deve ser a coisa mais emocionante do mundo. Além do mais, procurar algo deve te dar um bocado de vivência. No meu caso, o que mais se aproxima de vivência são as tantas, inúmeras, incontáveis situações e os diálogos imaginários dentro da minha cabeça, com pessoas imaginárias que só existem -adivinha só- dentro da minha cabeça. Essas pessoas nunca têm muita forma definida. Sequer nome têm, na maioria das vezes. Será que elas contam como parte da minha vivência, ou são só manifestação fútil da minha imaginação esquizofrênica?

9 comentários:

Daniel Bastos disse...

Mas mas mas mas...
Você tem 19 anos.
=O

Carlota Polar disse...

Mas hein?
Quantos você achou que eu tivesse? :O

marcelo groff disse...

vc e seus livros... isso q te deixa com cara de mais velha! escreve, minha linda escreve, q sua cerimonia de lançamento vai reunir as cosias e pessoas mais bisonhas q o brasil já viu...

Wallwitz da casa do Pedrinho diz: disse...

Paula, te amo :]
(juro que vou imprimir isso e repassar as pessoas que eu obriguei a ler livros dele)

Duda disse...

Rubem braga começou a publicar crônicas aos 15 anos. Isso significa que... que... EU JÁ PASSEI DA IDADE!
hahahahahahhaha
adorei o texto, muito gostoso de ler :)
quando publicar o livro me avisa =*

Lúcia disse...

Me espantei mesmo foi com o cargo de assistente de necrotério que ele já exerceu... talvez isso seja inspirador...!

Mas cinco anos é muita coisa... pode ter certeza de que, se esse for o seu objetivo, você vai ter mais do que o tempo necessário pra escrever e buscar publicar alguma coisa. Mas daí a ser Jonathan Safran Foer...!

E que negócio é esse de se achar extremamente sem-graça? Isso eu diria de mim mesma, e olha que às vezes, escrevendo só pra me divertir, não consigo parar de rir... Ahhh me engana com essa!

Como vai a criação de aves? Já chegaram as avestruzes que enviei...?! ;D

Quanto à franquia, sugiro o Habib's, adoro!

Aliás, que é que você pensa em estudar hein? Posso votar pra psicologia? Também tenho vontade de fazer esse curso... mas no meu caso o tempo não ajuda com todas as coisas que tenho vontade de aprender e de fazer. Quem sabe, se eu começar agora como assistente de necrotério...

Beijos moça!

Zoltan disse...

Digamos que o "lance" da idade seja extremamente irrelevante para o caso de você querer ser escritora.
Fazer dinheiro com o que você escreve talvez seria uma questão a se pensar. Contudo os escritores mais interessantes de que recordo são na grande maioria pessoas que não têm essa preocupação.
Fora o "blá blá blá", eu gostaria de ser escritor um dia. Mas meu português é ruim, minha disciplina é pouca e as idéias são muitas. É provável que eu reúna algumas coisas, encaderne e entregue para amigos e parentes.
Você escreve bem.

Anônimo disse...

Va para Andorra, nunca soube de ninguem que tenha saido ou vivido naquele lugar, hum...improvavel.Manifestação fútil da imaginação esquizofrenica?? oba!!...posso passear no shopping com sua imaginação um dia desses? (sem voce naturalmente.)

Rita Kramer disse...

"Não tenho, tampouco, o desejo de buscar nada. Apenas imagino que, se você tiver o desejo de partir numa busca, que isso deve ser a coisa mais emocionante do mundo. Além do mais, procurar algo deve te dar um bocado de vivência."



Você já está indo. Acredite.
Como eu posso não te admirar tanto?!

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