domingo, 3 de fevereiro de 2008

Porque passar anos procurando um livro

"Estava cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?... Não quando se passa a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas - e em círculo, naturalmente... Essa comédia simulada: Fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce... Ah, se a vida quisesse submergi-lo... A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas - em estado de poesia - vivê-la!

Involuntariamente, sua mão fez o gesto de quem afasta alguma coisa, de quem afasta um pensamento. A verdade é que, no mais íntimo, ele temia essa força que tem o nome de paixão. Esse turbilhão que leva pelos ares como folhas secas tudo o que um homem tem de sólido, de ponderável, de respeitável! Isso não era com ele. Essa labareda que se consome prodigamente na própria fumaça... não, ele preferia queimar lentamente.

E contudo era tão lastimável a existência a meio pano, em águas calmas, com terra à vista; se viesse ao menos uma ventania, uma tempestade! Soubesse ele ao menos dirigir-se e desenrolaria todas as velas em direção ao alto mar da vida. E diria adeus aos dias monótonos; adeus, momentos de felicidade medíocre; adeus, ainda, pálidas emoções, que deviam ser aquecidas pela poesia para poder brilhar um pouco, e os débeis sentimentos, que precisam ser envoltos em sonhos tépidos, e ainda assim perecem de frio, adeus! Tomarei o rumo de terra onde as sensações enrolam-se como lianas opulentas em todas as fibras do coração - uma floresta virgem; para cada ramo ressecado há vinte outros em flor, para cada um que floresce, mais cem que brotam...

Ah, se pudesse lá chegar!...

Estava ficando esgotado de nostalgia, estava farto de si mesmo. Precisava de companhia. Mas Erik naturalmente não estava em casa, com Frithjof já estivera de manhã, e já era muito tarde para o teatro."

- Jens Peter Jacobsen, Niels Lyhne.

Isso é o que eu chamo de um bom argumento.

4 comentários:

Duda disse...

hahahahahha!
seram é foda, vai dizer.
é aquelas santinha de madeira, sabe? elas vêm tipo numa caixinha e dentro tem a santa, daí fica um dia em cada casa e vai passando adiante.
mas acho que na cidade grande não tem essas coisas.
teu blog tá ótimo! :)
adooro.
vou dar uma lida nas postagens mais antigas, bls?
beijo beijo, querida!

Duda disse...

aquelas santinhaS *


abafa.

Henrique Tonin disse...

Pensei que só eu e Rilke lêssemos J. P. Jacobsen =)

Carlota Polar disse...

!!!

Eu também! :O

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Fuça aew, lesk