segunda-feira, 3 de março de 2008

Ainda Os Thibault

Desde que li, eu e esse livro nos fundimos de tal forma que eu já não sei mais onde eu começo, afinal. Remexendo a procurar por uma coisa, encontrei outra. E quando encontrei a uma, já não me interessava mais. Então fica a outra.

"Mas, de improviso, como uma flecha de luz que corta a cerração, uma idéia, precisa sob a sua fórmula confusa, atingiu-a no ponto mais sensível e fez com que ela parasse de repente: "Nada nunca está perdido... Tudo é sempre possível...". Sim, apesar de tudo, ela ainda era jovem, tinha diante de si uma longa vida desconhecida: uma vida!, uma fonte inesgotável de possibilidades!...

O que ela descobria, sob tais banalidades, era tão novo, tão perigoso, que ficou aturdida. Compreendera de repente que, se depois do abandono de Jacques, ela havia podido curar-se e tornar a ser senhora de si, fora apenas porque tivera a sorte de, naquele tempo, poder afastar toda e qualquer esperança.

"Irei começar de novo a esperar?"

A resposta foi tão afirmativa que ela se pôs a tremer e teve de apoiar a espádua no barrote da prateleira. Ficou vários minutos imóvel, de pálpebras baixas, num estado de estupefação letárgica que a tornava quase insensível. Visões de sonho passavam-lhe pelo cérebro: Jacques, em Maisons, depois da partida de tênis, sentado ao seu lado no banco; e ela via distintamente as gotas de suor que lhe orvalhavam a fronte... Jacques, a sós com ela na estrada da floresta, perto da garagem onde acabavam de presenciar o esmagamento do cão; e ouvia a sua voz angustiada: "Você pensa muitas vezes na morte?...". Jacques, a portinhola do jardim, quando aflorara com os lábios a sombra de Jenny no muro banhado de luar; e ouvia seu passo a fugir pela grama, na noite..."


Les Thibault, Roger Martin Du Gard, Tomo II.

3 comentários:

Rita Kramer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rita Kramer disse...

Cê sabe que eu não conhecia esse autor? Estou falando isso sem a arrogância que os estudantes de letras geralmente têm, e ainda mais pra admitirem que não leram algo ou não conhecem algo.
Enfim, aí nessas horas é que se vê a vantagem de ter bons amigos virtuais e um Google a sua disposição. Apóio totalmente a veneração que os nerds têm pelo Google.

Enfim, descobri que o Du Gard era amigo do Gide, esse eu conhecia, porque sempre se fala nele quando se vai falar de Realismo/Naturalismo.
Mas por que disse tudo isso? Sei lá. É boa a sensação de ter alguém a quem você pode dizer as coisas que você pensa sobre as coisas [seja lá a besteira que for].

Rita Kramer disse...

Ah, uma coisa que eu ia te perguntar... Você leu Proust mesmo?
Eu vi aquele post com o livro com a dedicatória uótima e tal..
MAs assim, sou sua fãaaaaaaa!!!

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Fuça aew, lesk