segunda-feira, 17 de março de 2008

A barata

O problema das pessoas que de alguma maneira buscam a inteligência é que seus inconscientes sabem que, se é pra mentir pra si mesmo, é bom fundamentar muito bem a mentira.

Porque ninguém quer mentir pra si mesmo e não acreditar no que mente.

E, sinto muito, todos nós fazemos isso.

O caso que difere o valor pessoal de cada um é quanto tempo nos deixamos seduzir pelas mentiras. "Sou estóico, quero acabar sozinho" só porque não há filas de mulheres caindo na aba, "não ligo pra dinheiro, acho que os ricos merecem morrer e o in é ser pobre" pra encobrir a falta de dedicação ao ato de focar-se pra ganhar dinheiro. 60% ou mais dos socialistas se enganam com essa lorota, o que infelizmente torna a classe de um modo geral desprezível. "Como carne porque quero, porque não comer é coisa de viadinho e tem mais: quero que todo o resto se foda" quando o vegetarianismo é difícil e sem graça. Tá cheio de exemplos.

O mais derradeiro está no livro de auto-porrada de um holandês tão abominável e desprezível quanto admirável, Arnon Grunberg. Nele, a mulher do personagem auto-biográfico concatena numa frase brilhante a armadilha que todo sujeito razoavelmente esclarecido, mas falho em outros aspectos, cai feito um patinho, em justificativas apaziguadoras. Ela fala a ele que "ele não sabia em absoluto viver, mas sabia justificar seu ponto de vista de maneira formidável."

Não é o que todos nós fazemos, mais cedo ou mais tarde?

O que te dá a chance de sobrepujar isso é precisamente a hora que se acorda. Pode ser agora, mas daqui a vinte anos é só triste. Ter quarenta anos e pensar, "puxa, eu podia ter saído e dado uma corrida lá fora, enquanto não, fiquei aqui, dentro de casa, falando que estava refinando meu intelecto e que detestava o mundo, enquanto tudo o que eu tinha era MEDO. E agora que me dei conta disso, tudo o que eu tenho é osteoporose."

A inteligência é diretamente proporcional à sutileza e ao refinamento das mentiras que se conta pra si mesmo.

Cada vez que eu venço a preguiça e o horror que tenho de gente, preciso ter em mente o momento para que possa vencer o dia seguinte.

It doesn't get any easier, honey.

Mas o atalho não tem mais apelo quando você aprende o prazer do percurso.

Cansei de me sentir superior ao que eu não tenho encarado. Admitir e reconhecer uma fraqueza não é desculpa para abraçá-la e dar o assunto por encerrado.

É fácil demais pra mim me taxar como uma solitária. Esbravejar de dentro do meu mundinho seguro que balada é uma merda e que hômi é tudo frouxo e que conheço todo mundo nessa cidade e ninguém me interessa. É tudo verdade. Cada palavra.

Mas é tudo pra encobertar.
Eu tenho é medo.

Posso acordar agora, ou daqui a 20 anos. Ser lobo é fácil. Já nasci assim. Agora, abraço minhas incapacidades e faço disso um personagem ousado, ou encaro minhas deficiências como elas são, falhas?

Eu tinha argumentos reconfortantes pra minha falta de objetivo. Ficava pra lá de bonito, como só a mentira é capaz de tanta beleza. A verdade é nua e crua e geralmente dói. A verdade é óbvia, o óbvio não se embeleza; a mentira é que tem que se reinventar e ser mais criativa a cada dia. Hoje sei qual devo preferir.

Mudei, meus amores, eu mudei. Não sei que bicho estou me tornando, mas já tenho uma boa idéia do que não quero ser.

Diz aí, meu amigo, o que cê vai fazer?

9 comentários:

Daniel Bastos disse...

Ser o que não quero pra ter o que não tenho.

Pedro disse...

Pois minhas incapacidades se mantêm, minhas mentiras vem junto e nós três somos muito felizes.

Daqui a vinte anos o arrependimento se junta e seremos uma família desajustada que se tolera por não ter outra opção.

Zoltan disse...

A barata é um totem que representa perfeitamente o post inteiro.
Adaptabilidade. Sobrevivência. Precisamos aprender muita coisa mesmo... -__-'

Basílio Sgaratti disse...

Olá Carlota,

Em meu nome e no de Hesílio, agradeço o elogio ao blogue. Não se sinta arruinando o anonimato, mas divulgando-o. Sinta-se à vontade para linkar e divulgar o blogue. Faremos o mesmo com o seu, que diga-se de passagem, é deveras inteligente. Em relação ao texto, como o colegas disse ai em cima, a barata é mesmo um Totem. O interessante é a forma como nos desdobramos para formular essas auto-indulgências, sendo que esse esforço poderia ser canalizado para algo melhor.

Abraço Fraternos,

Rita Kramer disse...

Eu provavelmente não vou fazer nada.
Como sempre.

Carlota Polar disse...

Puxa, a minha barata era só a da vizinha, mas essa aí de vocês é bem legal, bem mais profunda, né? Vocês estão super interpretando o que eu super não vi. =D

Eu engano bem, mas na verdade sou bem burrinha. :)

Felipe disse...

tenho certeza que esse não é um problema exclusivo das pessoas que buscam a inteligência, mas essas podem ocasionalmente topar com esse tipo de auto-reflexão, ao contrario das demais sem grandes pretensões de conhecimento...

pode ser que, embora sua própria falta de objetivos seja justificada com "mentiras" escapistas, os que possuem seus objetivos de vida e iniciativa para persegui-los façam isso mediante suas próprias justificativas internas orientadas pelo medo e suas próprias "mentiras"...

não há como não fugir, (e essa é minha própria mentira...)

Hesílio de Freitas disse...

Cara Carlota,

Faço das palavras do Basílio as minhas. De forma alguma você arruinou o anonimato divulgando o nosso blogue. O importante é que as pessoas adentrem e espiem o que há de mais intrigante nesse mundo tão escondido.

Seu blogue é fantástico. Parabéns.

Um cheiro.

Neto Macedo disse...

Seus textos me emoocionam. =(

Você realmente escreve tudo isso só? Que texto bonito...

Contato

paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk