sábado, 19 de abril de 2008

Extratos do prefácio de Retrato de uma Senhora, de Henry James

"Creio que não existe verdade mais nutritiva ou sugestiva a esse respeito que aquela segundo o qual o sentido "moral" de uma obra de arte depende da quantidade de vida envolvida na sua produção. A questão se volta, obviamente, para o tipo e grau de sensibilidade primordial do artista, que é o solo de onde brota seu tema."


Se Turgueniev dissipou os medos e as preocupações de Henry James, este, por sua vez, me trouxe alívio. Não sou nivelada com esses dois monstros da literatura, evidente. Mas isso não impede que eles possam me trazer algo de apaziguador. No nível estaria se pudesse oferecer algum alívio a eles, não, provavelmente não poderia, e é aí que reside a diferença atual de patamares.

Mas, continuando, sem maiores delongas sobre o quanto pode-se ser ajudado por alguém maior, porque isso é tema vasto que, apesar de merecer discussão, jamais discorrerei por páginas e mais páginas (ou não), Henry James me aplaina o caminho. Não, não é preciso desviver e ser avesso à mobilidade, à vivacidade, para retratar. É perda de tempo sim, mas apenas se o objetivo for ser o mais prolixo possível com o pouquíssimo tempo nos ofertado.

Mas... prolixia? Agatha Christie e Isaac Asimov são prolixos. São magnânimos ao nos oferecer em centenas e centenas de livros seus universos interiores, releituras de seus mundos particulares. Mas o que eles têm, se é soberbo, é deles. Já me eremitei por tempo grande. Minha adolescência foi um inside trip de fuga tão imenso, que talvez nenhuma imersão seja mais digna de valor que uma feita num período tão "dourado" da vida. Nenhuma pode ter tanto valor, e quando se faz um sacrifício satisfeito e bem-aproveitado feito esse, prosseguir fazendo o mesmo em idades mais opacas, fazer exílios mais pálidos nessas novas fases menos nobres da vida é quase um desrespeito ao esforço já feito. Já me encapsulei justo quando ninguém se recolhe; agora é hora de ver, de viver, de reler, desta vez ao vivo e em pessoa (e isso tem um sentido certamente maior pra mim do que imagino que deve ter à primeira vista) tudo que já li em livros. Sim, James me tranqüiliza quando diz não ser errado à função de escritor... viver. Será, sim, uma perda de tempo e uma facada à prolixia, mas em benefício da palavra mais certa, da frase de melhor construção e melhor colocada, transformar em pulsação o visto, fazê-lo sair do papel.

Estive pra dentro, aprendendo como pôr no papel. Agora quero a vibração do que não só é aprisionado enquanto texto, mas que entretanto só se encontra aprisionado na clausura de tempo exato até que seja lido, entendido e caminhe pra fora do livro com a naturalidade que só se encontra na verdadeira liberdade de expressão, a liberdade que se exprime e encontra eco. A liberdade de dizer e falar no vazio pra mim não tem charme, não tem sentido; a liberdade na incompreensão é um erro. Prefiro a prisão do silêncio até o momento que há entendimento. Não há sentido na liberdade se com ela não vier a sensação de que qualquer coisa é possível. E essa, a que talvez seja a mais bela e libertadora das sensações, a de que qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, é plausível e alcançável se pelos caminhos certos de ambicioná-la, infelizmente não se alcança a menos que haja eco, correspondência, sensação de troca, de entendimento. Fora disso não é possível. Fora disso não há liberdade. Liberdade incompreendida, tomada à força na base do estupefamento de todos os demais, não é liberdade, é rebeldia, é arroubo juvenil. E a rebeldia vem da carência, é o resultado frustrado da necessidade de aprovação. É o maior sinal de que "se precisava" e não foi-se atendido. Quem precisa não é livre. Livre é quem tem. Tem alívio de saber que pode-se ser quem se quiser, até mesmo ser a si mesmo.

E pra isso é preciso se basear, se alicerçar, no alicerce de ser entendido. Sim, a minha liberdade, a liberdade que ofereço, advém do eco. Aos rebeldes há apenas o silêncio. Henry James me compreende, e eu o amo por isso. Quem sabe um dia chegará a minha vez de compreender. Compreender a tudo, ou a todos, ou a alguém, para com isso poder doar um pouco de liberdade. Essa liberdade que é como um amuleto dos católicos que agora me foge o nome (e me exaspera!), que não pode ser comprado senão para ser dado, que não pode ser usado a não ser que seja ganho. Minha liberdade é um escapulário. Primeiro se merece-a, depois ganha-se. Minha liberdade não se toma com as mãos, se merece dos outros. Henry James que me deu.

5 comentários:

Rodrigo disse...

sinceramente, não
nós não nos conhecemos, mas eu estava viajando de blog em blog qndo eu cheguei no seu, achei peculiar seu texto, "Não."

bastante peculiar na realidade
ai eu pensei em comentar, e na falta de algo construtivo, mandei um desejo de otimas viagens...

bjo pro c

Servidores disse...

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Felipe disse...

o amuleto católico q vc esqueceu o nome por acaso é o livre arbitrio?

Basílio Sgaratti disse...

Olá Paula,

Sim, já aprendi seu nome em postagens anteriores. Agradeço pelo comentário tecido no Clube Anônimo. Apesar da narrativa ficcional, parte daquele texto foi vivida por uma pessoa próxima a mim, e foi que me impeliu a escrever sobre o tema. E por isso digo que viver jamais é perda de tempo. Pelo contrário, é o que permite que seus textos transcendam o papel (ou o HTML). Belo texto este último.

Espero que aproveite sua viagem,

Abraços Fraternos

Clá disse...

"Essa liberdade que é como um amuleto dos católicos que agora me foge o nome (e me exaspera!), que não pode ser comprado senão para ser dado, que não pode ser usado a não ser que seja ganho. Minha liberdade é um escapulário. Primeiro se merece-a, depois se ganha-a."

Estava pensando em algo parecido esses dias. De liberdade doada, e de outras coisas que também funcionam assim, você dá primeiro, ou só usa se ganha. E tinha lembrado de você com isso. Por que será?

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