domingo, 15 de junho de 2008

Cotidiano

Ele olhou pra baixo, para ela, sentada na última fileira do ônibus, com uma tênue esperança de ser reconhecido. Ela pensou que estava sendo paquerada, e por isso baixou os olhos como sempre faz. A meio caminho dos olhos encontrarem o chão ela percebeu que talvez o conhecesse. Ele interpretou seu olhar desviado pro chão como um sinal de reprovação, um sinal de não ter sido reconhecido. O que não tornava sua interpretação tão distante assim era que ela realmente não fazia idéia de onde ou em que circunstâncias haviam se conhecido. Um olhar pra cima tímido pra tentar consertar o estrago encontrou apenas um olhar duro pra frente, escondendo o embaraço de ter sido jogado à condição de desconhecido. Ela teve pena, mas estacar o olho até que ele se virasse um pouquinho, aí seria interpretada como uma paquera. Era mais um impasse gerado pelo tim-maianismo, sua capacidade de fazer centenas de amizades e não agüentar manter nem uma única delas, e nem sequer lembrar de onde as conhecia. Era um modo de vida bastante... esdrúxulo, considerando que era uma jovem de vinte anos, aparentemente sem problemas neurológicos de espécie alguma, com alimentação com muito Ômega 3 e todas as outras funcionalidades razoavelmente normais.

Mas o destino é um sacana mesmo. Vaga um lugar para o desmemória. Do seu lado. Agora ela espera olhando pra frente, pra cima, com naturalidade. Seu olhar se encontra e dispara um oitodobom resolvendo o problema do não reconhecimento. Ele fica todo alegre, e ela agora tem outro problema, o de que ele está (e estará) ao seu lado pela próxima hora e ela não faz a menor idéia de quem ele seja. Ela pensa, "Cu!", e faz o que há a se fazer: nada. Estava incomodada, mas principalmente consigo mesma, por não ter mantido por mais de uma semana aquele caderno de pessoas com nomes, associados com detalhes dessas pessoas, se tinham família ou não ("E aí, como vai a família?"), dados do trabalho ("Puxa, você saiu de lá? Nunca mais te vi!"), ou algum esporte ou lazer mencionado ("Tem jogado muito?"), ou qualquer outra coisa que resultasse numa -com sorte- curta conversação que não tivesse a ver com ela mesma, assunto que geralmente morria devido a sua crença de que só se perguntavam coisas pessoais para fazer a outra parte se sentir bem ou ficar mais à vontade. Ela não achava justo que lhe fizessem bem, quando ela que era a parte desmemoriada. Claro que também podiam não saber quem ela era ("Eu nunca tive a pretensão de ser inesquecível"). Aliás, seu maior sonho era que fosse de comum acordo que esquecer uns dos outros era um direito inalienável dos homens e que isso jamais deveria afetar a auto-estima da parte esquecida.

Ela divagava apavorada com a possibilidade de ter sua solidão levada embora a qualquer momento e ter um papo xarope posto no lugar. Xingava por dentro. "Malditas relações sociais", "Maldita falta de memória", "Malditos coletivos", "Maldita humanidade", "Maldição!", e começou a suar e lembrar que era Cluster A, irremediavelmente Cluster A, e que diagnósticos psicológicos, mesmo os auto-diagnosticados, estão aí pra aliviar a culpa e servir como escusa para os próprios defeitos, que deixam de ser tão próprios para pertencer ao seu próprio clubinho. Consolo na massa.

Ela estava nervosa, ansiosa, olhando fixamente pra frente, quando percebeu que não olhava pros lados, pra rua; já estava tão perto de casa que subitamente relaxou a ponto de quase lembrar daonde conhecia o sujeito. Não lembrou; mas deu sinal, deu tchau ao desmemória e saltou uns 500 metros antes do seu destino, mas com um sorriso no rosto.

Escapara, afinal.

E ainda não sabia que o veria de novo.

8 comentários:

koni-kun disse...

("Eu nunca tive a pretensão de ser inesquecível")

aheuhauehauehauehaue ri muito! xDD

Acho que fazer narrações incríveis falando de sua própria vida (ou apenas com um realismo e introspecção suficiente para que pareça que seja a sua própria) devia ser uma prática difundida net a fora... é muito foda.
Se bem que... esquece, já tô imaginando miguxos contando o dia em que compraram o primeiro all-star e quando a PrIxInHa assinou com a caneta com cheiro de morango que ela comprou a 1 real no ônibus.

É melhor deixar isso com quem sabe o que tá fazendo... deixo contigo :P

Rafael Formiga disse...

Maravilhoso.
Tava com saudades dos posts grandes =)

Kramer disse...

Escreva um livro, por favor.

Luis Pellicano disse...

preguiça obesa de ler esse post agora, mas venho agradecer pela presença no meu ;)

eventualmente terá algum grassitar nervoso lá, é só conferir

Clá disse...

Mal posso esperar pelo número 15. Sórdido.

Daniel Bastos disse...

Heaven knows.

Rafael Formiga disse...

Heaven knows I want to break free...

Parei.

Roberta Pio disse...

obrigada pelo comentário!

gostei bastante daqui.

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paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk