terça-feira, 26 de agosto de 2008

Jabás, divagações e despedidas

Hugh MacLeod mais uma vez se faz preciso. Eu REALMENTE recomendo que, se você tem uma noção razoável de inglês, leia o How To Be Criative dele. É sucinto, preciso e trata com extrema clareza e de uma maneira descomplicada diversos assuntos que nunca vi ninguém mais tratar. Não é, de forma alguma, um livro de auto-ajuda no sentido conhecido da coisa (BUNDÃO), e sim nada mais que considerações interessantes pra quem quer pensar fora da caixinha.

O que me traz a falar dele (Já deveria ter falado, inclusive antes, inclusive eu sei, mas tive preguiça) é que estou num trem na Inglaterra, andando de ré - em relação às poltronas, estas ficam de costas para a "ação", dando a impressão que se está andando pra trás - e que, além de ser uma coisa horrorosa, mexe com a minha cabeça. Pra mim, sessões de regressão seriam muito mais eficazes se fossem feitas dentro de trens assim. Fico pensando pra dentro, e pra trás. E como minha memória é aquela bosta costumeira, só consigo pensar, no máximo, de Abril pra cá, e avaliar a partir.

E é aí que entra o MacLeod. Mais precisamente, quando ele fala sobre o que ele chama de "pilares", meio obviamente, as coisas que nos apoiamos, precisamos ou achamos que precisamos pra viver. Hoje me desgarrei de um. E foi tão suave, que me pareceu, justamente, como se eu estivesse acenando do trem que partia, igualmente suave, me levando ao contrário do lugar que eu queria ir. Deixei algo onde eu queria demais ir, me desgarrei totalmente e me sinto tão bem, tão tranqüila, que me sinto como eu mesma, como não me sentia em muito tempo.

Percebi o quanto a conversa do meu antigo pilar, meu antigo apoio, era desinteressante, e o quanto eu enchia com uma explosão de intensidade, de sentimento, de cor e perguntas e tornava tudo interessante por nós dois. Percebi o quanto fechava os olhos aos defeitos, satisfeita por fazer concessão, como toda mulher ama, se privar pra dizer que é amor, "amar apesar" é muito mais gostoso que "amar por".

Mas, principalmente, foi quando passei por este campo com milhares de tons de verde, como só o Reino Unido parece que tem, e percebi que não sei mais qual deles é a matiz dos seus olhos. E foi só uma constatação, assim como saber se vai chover ou não ou que tem um Marks & Spencer na esquina da minha casa. Tanto faz.

E desde então, deixei o trem me conduzir, agora com minha anuência, e não mais fiquei reclamando o quanto odeio andar de trem de costas. E não é assim que a gente vive? Nunca podemos ver o que estará a nossa frente, e tudo o que podemos é olhar pro que se torna passado um pouco rápido demais, e no entanto, só a partir dele podemos vislumbrar o que esta por vir, observando o que se passou.

Entendi que ele não está me levando aonde eu queria ir, e sim me levando ao meu destino.

E eu troco meu pilar com seus olhos verdes pelo que não abro mão a menos que seja realmente muito, mas muito além do que eu sonho, e eu não sonho baixo: minha liberdade. Chega de tanto sofrimento, instabilidade, altos e baixos. Não andei postando ou interagindo com quase ninguém porque sabia o quanto o meu brilho nos olhos tinha esvaído, minha alegria natural de viver não estava mais presente. Eu estava muito ocupada me agarrando em algo que - graças à Deus! - não preciso. Sou muito mais vocês, meus leitorezinhos fofos insistentes que continuam aqui, mesmo quando esse barco quase afundou. De ré, vamos! Que a estrada é bonita e é na frente dos nossos olhos que ela tem que correr.

E talvez ainda, toda vez que eu olhar para esses campos verdes, vou lembrar do quanto não me lembro de que verde dos olhos dele eram. E não importa.

8 comentários:

Daniel Bastos disse...

"Everything that has a beginning..."

Clá disse...

Agora você está pronta para conhecer outros tons de verde.
Alguns deles, inclusive, eu preciso conhecer.

(Pessoa sentindo mais plenamente possível o que é estar "feliz por")

Rafael Formiga disse...

Posso andar nesse teu barco de ré?

Basílio Sgaratti disse...

Vai trocar o verde do fundo do blogue também?

Lembro-me diariamente da sua história do Lava Jato. Rio sozinho.

Abraços fraternos,

proeva disse...

se um dia precisar de carona no caminhão...

Paula Groff disse...

Olha Basilio, nao é ma idéia!

Kramer disse...

CARALHO.
Que saudade eu senti de te ver tão inteira em um texto aqui. Esse blog, desde que o descobri, passou a ser minhas doses periódicas de inteligência, sensibilidade sem pieguice... de ti. DE TI.
Que bom que você voltou. De ré, ou não, tanto faz. O que importa é a tua presença.


E ter esse texto guardado nos meus arquivos.

Kramer disse...

Ah.
E vou entender isso como um presente de aniversário, já que o dia do post foi 26 de agosto. Melhores presentes.

Contato

paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk