domingo, 30 de maio de 2010

Repostagem

De 2008, do http://paulagroff.wordpress.com/


Comecei a escrever esse texto pensando em uma determinada mulher, cujo nome hoje não importa, mas o que ela me deu, mesmo sem saber, foi uma forma de compreender o que eu vejo acontecer com tanta gente, há tanto tempo. Ela na época ocupava um lugar que eu queria muito. Durante muito tempo eu a via feia; e ela não era. Subestimava minha adversária, pois não queria ter adversária nenhuma, e me teimava ao fato de que ela não deveria estar ali. Mas ela estava, e esse era o único fato que eu deveria levar em conta, e o único que eu não levava. Ela estava ali antes de mim, e com unhas e dentes cravados, resolvida a permanecer. Eu, o que era eu? Apenas um emaranhado tao honesto, quanto estúpido, acreditando em leis divinas sob as quais os homens não vivem. Menos ainda as mulheres.

Eu até podia pensar que era meu dever fazê-la perder o que ela já tinha, mas eu só me agarrava à imagem de que ela nunca deveria ter tido.

De que entendem os justos, fora do seu reduto? São os menos qualificados a sanar injustiças dentre todos. São cegos feito o homem que tem como primeira amante da mulher mais bela do mundo, à todas as belezas menores. E eis que um dia a bela se vai, ou morre, e todas as outras lhe são feias, apenas porque teve o sublime, porque teve demais. E ele as recusa todas, não sabe enxergá-las e morre só. Se ao menos pudesse ter escalado os patamares da beleza, para apenas no fim encontrar sua musa, então teria uma compreensão do mundo sadia, progressiva, conquistada.

O mesmo acontece com os justos, que se enamoram dos escolásticos antes mesmo de ver o mundo. Ensimesmados, se fecham numa redoma em busca dos ideais e, pasmem! – os acham. Escritos por homens que viveram 80, 90 anos, sadios, saudáveis e fortes, tidos como os maiores pensadores de suas épocas, e e que sabiam, mesmo, tudo. Falam diretamente à sua alma e saciam o seu íntimo. A justiça ideal, os valores mais brilhantes, a melhor maneira de fazer a ti e aos outros apenas o que imporia a ti mesmo, é o que eles pregam. E os justos, depois de embebidos nesses ideais tão plenos, claros e sublimes, se sentem prontos para irromper a casca e surgir ao mundo, cada um como o ser humano mais preparado, mais qualificado que todos os outros.

Errado.

Seu despreparo é notável e suas derrotas, mais profundas que a de todos os outros. A vida o esmaga como um carrapato e sua devora sua bela visão utópica, e o choca, pois o mundo não é só diametralmente oposto aos arroubos dos melhores filósofos, como não só não espera até que seja amortecido o primeiro impacto – que quem sabe com este o nosso tão dileto aprendiz de escolástico pudesse chegar a alguma compreensão – como continua a surrar e a surrar para que a lição seja apreendida e nunca mais esquecida:

Eram sonhos. Todos os livros o são.

Há os que, depois disso, se despedem, há os que morrem, e há a classe dos sucumbistas, os curiosos vencidos que transformam o que aprenderam lá atrás, refletem como num espelho e mudam completamente, e vencidos no íntimo vencem na vida. Esta lhes oferece sucesso, e em troca bebe do rancor que essas boas almas nutrem de seus antigos mestres, do ressentimento ao se sentirem traídos tão inteiramente por aqueles que se faziam de bons, de nobres, mas que só lhe causaram tanta dor por ter acreditado em suas palavras doces.

Mas ainda há aqueles, em menor número, que se riem quando entendem aonde foram metidos, por que tipo de conto fantástico de retidão foram seduzidos. E descobrem o humor, a ironia, e usam desses artífices para seguir sendo.

A vida os espanca, e eles se riem, um riso cortante e que pega mais fundo, um riso que se rebela à vida. Que segue, e seguem amando a mais bela das musas, sem com isso serem de todo incapazes de andar pelos mortais. Ah, esses a humanidade pode até negá-los em vida, mas são eternos. Pode demorar e ah, em geral, como demora, mas o que deveriam ser anos de vida, para estes que se chamam imortais?

– Meus heróis me Impregnaram de idéias que não cabem em lugar nenhum desse mundo. – A menos que – pausa – eu resolva mudar o mundo! Ei, acho que era disso que eles estavam falando o tempo todo.

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