sábado, 31 de julho de 2010

DAS COISAS QUE DEGRINGOLAM RAPIDAMENTE

Note to self: Esse é um texto do ano passado, pouco antes de uma viagem que fiz, onde eu ainda estava atolada numa lama danada. Estava arrumando umas papeladas quando descobri esse caderno, perdido, que nem mais lembrava que existia. E de curiosidade, abri, e li esse texto. É pessoal demais, ou foi pessoal demais, porque hoje it's amazing how it doesn't snap any of my heartstrings. Eu o li friamente e achei um relato de uma pessoa que eu não sou mais, mas que interessa a mim. E o lendo, achei que era bem feitinho. Daí digitalizar para que ele não se perca completamente. E -lo em público é uma maneira de preservá-lo, pois daí ele para de pertencer a mim (eu que sempre me perco das coisas), e pra desafiar a minha mania de excesso de privacidade. Chega de lenga, pois. Eis o texto.


Até um tempinho atrás, havia um elo sem data pra terminar. Um elo que dizia, "Não quero que conheça ninguém enquanto eu estiver longe de você", um laço que afirmava que não queria sequer partir. Era, talvez, um laço irrefletido - mas quem é que quer pensar numa hora dessas? - mas a ingenuidade molda muito mais ligações em minha vida do que pensar com maturidade, com sangue-frio. Também, convenhamos, quando se acabou de entrar na casa dos 20, achar que qualquer decisão seja baseada em sangue-frio é a mais pura ingenuidade. Aliás, que diabos, QUALQUER idade está sujeita a decisões, quando falamos do aspecto emocional, a serem completamente patéticas. Querer afirmar que aquela gagueira súbita incontrolável, aquele impulso irrefreável de fazer papel de bobo, aquela ânsia em iguais proporções de ficar, e de sair correndo, chamar a isso de maturidade é, no mínimo, uma grande inocência e uma ingenuidade incrível. Então prefiro à inocência do início ao fim.

Em quatro semanas, com um pouquinho de drama, pero no mucho, posso dizer que a minha vida mudou. Eu tenho uma perspectiva que hoje não tenho mais, para constatar o óbvio [o que eu quis dizer com isso hein minha gente? "Eu tinha uma perspectiva", ou eu "tenho uma perspectiva do que não tenho mais"? Nunca vou saber.] Mas o que fica, e o que me absurda, é o excesso de registros que temos hoje para retratar a tudo que já não temos mais. Temos tão pouco futuro, se compararmos ao quanto que fica do nosso passado... temos tanto passado desde o segundo que nascemos que é impressionante que não capitulemos sobre ele. Temos registros grandes, pequenos ou médios, a escolher, mas muito mais do que poderemos um dia gravar. Temos desde datas históricas, primeiras vezes, a insignificâncias que não marcaram a vida de ninguém, exceto a de uma ou duas. A vida privada está cheia de acontecimentos que transformaram a vida das pessoas, mas que nunca transpuseram a soleira da porta das casas. [estava lendo Saramago, As Intermitências da Morte, nessa época, esse parágrafo me faz lembrar disso muito bem.]

A vida é curiosa e triste, nesse sentido. Dá a opção às pessoas de serem transformadoras ou ninguém, e às vezes os dois.


Por que tudo isso? Porque acabo de perceber o quanto a vida não "perdura", e é por isso que precisamos de datas Porque ao mesmo tempo que os dias só "existem" numa real medida de importância de tempos em tempos, o passar de um dia pode ter um poder tão intenso, tão determinante, que pode ecoar nesse pouco futuro que nos resta indefinidamente.

Foi revivendo um celular velho, depois que o meu foi inutilizado, que tudo voltou. As lembranças de um mês atrás foram superpostas ao presente, como se fossem ontem e hoje. Você falando, "Um dia inteiro sem SMS? NAH...", e um boa noite, mostram um abismo entre nossas duas realidades. E como sempre, o fim é muito mais memorável que o começo. Por mais que a sua mensagem seja muito mais bonita de lembrar, é hoje que fica pra sempre, uma nota de rodapé em tudo o que não somos capazes de ser, e em tudo o que não somos mais. Hoje podemos prescindir um do outro por dias e dias, a minha frieza e a sua indiferença dando o tom. Pode ser que tenhamos apenas brincado de precisar um do outro, ou ingenuamente pensado que podíamos elevar nossa ligação à beira do indispensável. Mas o que é a vida, senão o somatório da nossa ingenuidade, e das coisas que nos são indispensáveis?

Armação dos Búzios, 19/11/2009

Nenhum comentário:

Contato

paula.groff@gmail.com

Fuça aew, lesk