“O amor entre nós dois quase não teve tempo de acontecer.
Eu choro como uma loba vendo o seu filhote numa armadilha,
Pronta para lamber todas as suas feridas cor de ferrugem,
Para enxertar a neblina dos campos onde estiver lhe faltando a pele.
Mas você já morreu, encurralado em Paris,
e não pode ser resgatado, inteiro ou aos pedaços.
Adeus, meu filhote tímido e selvagem, agora morto.
Você sempre será mais querido para mim do que todos os que eu domestiquei
Mas não há ninguém que não seja encurralado, e, em todo o mundo, os países –
menores, maiores, mais leves, mais rígidos – são armadilhas.
Adeus, meu filhote, para tantos um lobo selvagem.
Pode haver alguns com menos dentes, mas não tão gentis, nem tão puros,
E, acima dos lobos e dos cães que brigam sobre o teu túmulo, eu uivo
não como uma loba, mas apenas como uma cadela massacrada.”
- Nina Korzinkina
Estava tentando lembrar dessa poesia há um tempo, até que lembrei de um caderno onde eu as transcrevia. Ela é estranha, esquisita, era e é uma das minhas favoritas, e a neblina dela está na minha vida há muitos anos. Amanhã finalmente vou à exposição do Pessoa, e acho que a aproximação da data é que está me fazendo ficar tão ligada à poesia de novo.
Sentimentalismos de lado, as mulheres fortes ainda são das poucas que valem a pena serem ouvidas na literatura, e as russas então, nem se fala.